Memorial Attílio Corrêa Lima

Antes de ser a Cidade do Aço, Santo Antônio de Volta Redonda era apenas um distrito de Barra Mansa. Foi nos traços de um projeto de desenvolvimento, e na mente de um arquiteto, que essa antiga vila operária se transforma em uma grande cidade. O Presidente Getúlio Vargas, ao idealizar a Companhia Siderúrgica Nacional, propôs uma cidade que pudesse acolher o grande número de trabalhadores necessários para a operação da Usina Presidente Vargas. Foi a visão do arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima que ajudou a transformar o espaço às margens do Rio Paraíba do Sul em uma cidade planejada, concebida para acolher trabalhadores, famílias e serviços em harmonia com o desenvolvimento industrial que, posteriormente, foi somada em qualidade por outros arquitetos e urbanistas.

Este memorial presta homenagem ao profissional que desenhou os primeiros traços da Vila Operária de Volta Redonda e contribuiu decisivamente para a formação da identidade urbana. Sua obra permanece viva nas ruas, bairros e espaços que ainda hoje fazem parte do cotidiano da população, constituindo um legado histórico, arquitetônico e humano para as futuras gerações. A seguir, sua biografia, por Andréa Auad.

Attílio Corrêa Lima: Legado, Planejamento e Memória

Arquiteto, urbanista, paisagista e designer. Expoente profissional no período de modernização e industrialização do Brasil, referência para a História do Urbanismo Brasileiro do século XX. Foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro, entre 1920 até 1925, recebendo a medalha de ouro e o prêmio de viagem ao exterior no ano de 1926, indo para Paris no início de 1927, ano em que ingressa no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, formando-se em 1930. De volta ao Rio de Janeiro, em 1931, assume a direção da cadeira de urbanismo, criada na modernização do ensino da Enba, no ano anterior, pelo arquiteto Lucio Costa. Realiza, como Urbanista, o Plano Urbanístico de Goiânia (Figuras 2 e 3), entre 1933-1935; o Plano Regional de Urbanização do Vale do Paraíba e o Plano da Cidade Operária de Volta Redonda, em 1941, o Plano da Cidade Operária da Fábrica Nacional de Motores, em 1943, inacabado pela morte prematura do arquiteto (aos quase 42 anos). Além das atividades como urbanista, dedicou-se à arquitetura, ao paisagismo e ao design. Em 1937, Lima vence o concurso nacional para construção da Estação de Passageiros de Hidroaviões do Rio de Janeiro, inaugurado em 1938, com jardins também projetados por ele. O edifício foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), em 1957. Em 1940 é inaugurada a Estação das Barcas, cujo projeto mobiliário é assinado pelo arquiteto. Os dois projetos fazem parte da famosa exposição Brazil Builds, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), entre 1942 e 1943.

Ilustração das Principais Obras:

Proposta Preliminar de Desenvolvimento e Expansão da Cidade de Niterói, Brasil – 1930. O projeto-tese Avant Projet d’Aménagement et Extension de la Ville de Niterói au Brésil (não concretizado) de Attílio Corrêa Lima para o Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, feito em 1930, porém publicado pelo instituto em 1932, consiste em um plano para a remodelação de Niterói, baseando-se nos conceitos do urbanismo moderno.

Figura 1: Plano de Niterói de Attílio Corrêa Lima
Fonte: LONDON (2002)

Plano Urbanístico e Arquitetônico para a cidade de Goiânia (1933 – 1935). Em Goiânia, uma capital a ser construída, Attílio aproveitou-se da topografia local para dar à nova cidade monumentalidade. Nos pontos mais altos do terreno, agrupou os locais mais importantes na sua visão, o palácio do governo e os edifícios administrativos. Segundo o arquiteto e urbanista, “guardando as devidas proporções, o efeito monumental procurado é o do princípio clássico adotado em Versailles, Karlsruhe e Washington”.

Estação de Passageiros de Hidroaviões do Rio de Janeiro – 1937. Em 1937, após vencer o concurso nacional para construção da Estação de Passageiros de Hidroaviões do Rio de Janeiro, Attílio Corrêa Lima projeta um edifício determinado por um prisma retangular de dois pavimentos e os jardins em seu entorno. O edifício foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), em 1957 (Figuras 4 a 7).

Plano Urbanístico de Attílio Corrêa Lima para Volta Redonda – 1941. Sob o governo de Getúlio Vargas, em 1940, a primeira usina siderúrgica brasileira, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), seria implantada em Volta Redonda, Rio de Janeiro (Figuras 8 e 9). À vista disso, Attílio Corrêa Lima foi contratado para desenvolver o projeto da Cidade Operária. Seguindo os ideais da cidade industrial do urbanista inglês Tony Garnier (1896-1948), ele desenhou Volta Redonda de forma racional e moderna, determinou zonas de ocupações e propôs uma hierarquia de acomodações baseada na topografia do terreno e na produtividade fabril.

O planejamento urbano, que previa a construção de 4.000 habitações (Figura 10), ocupava, majoritariamente, as áreas planas já existentes, para que assim as montanhas ao sul e as linhas ferroviárias servissem como divisão entre a indústria e a cidade. Para o plano viário foi estabelecido um arruamento econômico que concentrava as atividades urbanas e facilitava a locomoção. Em seus estudos, Corrêa Lima organizou a cidade em grandes centros. À oeste, o Centro Administrativo (Figura 11), que deveria abrigar o prédio da prefeitura, mas, contrariando o projeto, foi construído a diretoria da CSN. Neste mesmo lado, atrás desse prédio, destinado aos operários não especializados, localizava-se o bairro Conforto. Com residências geminadas, continha fácil acesso as áreas comerciais e a própria siderúrgica.

Logo à frente do Centro Administrativo, o Centro Comercial contava com vias paralelas e grandes edificações. Próximo a isso, foi implantado um centro dedicado ao lazer, com cinema, clubes e restaurantes. Ao Sul do Centro Comercial, o arquiteto inclui mais um bairro residencial, agora destinado aos técnicos e operários especializados. A Vila Santa Cecília, como foi intitulada, também abriga escolas, espaços para o lazer infantil e sobrados para operários solteiros. Em um plano mais elevado, longe do ruído e da poluição, Attílio projetou o bairro Laranjal (Figura 12) para técnicos qualificados, engenheiros industriais e alguns dirigentes da indústria (Figura 13). Abundantemente arborizado, o bairro também conta com um clube exclusivo para moradores.

Diferente das cidades vizinhas, pode-se dizer que Volta Redonda cresceu de forma equilibrada, nada foi bruscamente implantado graças ao seu planejamento (Figura 14). O feito do arquiteto e urbanista na cidade da curva do Rio foi visto como modelar em nível nacional. Usufruindo do modernismo, que buscava contribuir para a renovação e progresso, Attílio estabeleceu o traçado geral da cidade, classificações e uso dos espaços. Criou algo que “representaria a autonomia e a expansão econômica da nação” (Auad, 2014, p.149).

Figura 14: Vista Geral da Vila Santa Cecília
Foto: Acervo Clube Foto Filatélico

Vídeos sobre Attílio Corrêa Lima

Para assistir todo o documentário, acesse o link: https://youtube.com/playlist?list=PLgNUtsebVTPXnmLGosBcpRKY-q-4KiiLq&si=vrncY2PUXiKz3Iy8

Referências Bibliográficas e Material de Apoio

BATISTA, Anamaria Diniz. O Itinerário Pioneiro do Urbanista Attilio Corrêa Lima. Disponível em: https://a.co/d/04QnoY7n. Acesso em: 24 jun. 2026.

MOREIRA, Andréa Auad. ATTÍLIO CORRÊA LIMA. Plataforma Digital Memória Viva VR. Disponível em: https://plataformavivavr.ugb.edu.br/attilio-correa-lima/. Acesso em: 29 mai. 2026.

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ATTÍLIO Corrêa Lima. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/18253-attilio-correa-lima. Acesso em: 20 abr. 2026.

DINIZ, Anamaria. Goiânia de Attilio Corrêa Lima (1932-1935): ideal estético e realidade política. 2007. 239 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de Brasília, Brasília, 2007.

LONDON, Marcos Zanetti. A circulação de idéias urbanisticas no meio profissional e acadêmico e sua influência nas obras de Donat Alfred Aagache e Attilio Corrêa Lima. 2002. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.

MIGLIANI, Audrey. Clássicos da Arquitetura: Estação de Hidroaviões / Attilio Corrêa Lima. ArchDaily Brasil, 27 ago. 2014. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/626074/classicos-da-arquitetura-estacao-de-hidroavioes-attilio-correa-lima. Acesso em: 28 abr. 2026. ISSN 0719-8906.

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PAULA, Juliene de. Nossa História Passa Por Aqui: Memória de Volta Redonda. Cultura Volta Redonda, [s.d.]. Disponível em: https://cultura.voltaredonda.rj.gov.br/nossahistoria/. Acesso em: 20 abr. 2026.

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